“Piper me ensinou que é mais divertido matar pessoas do que fazer terapia.”

A lenda urbana da babá que assume o cuidado de duas crianças em um casarão e é ameaçada por um psicopata estabeleceu uma relação interessante com o último episódio da série Scream. O original, Mensageiro da Morte, foi lançado em 1979, sob o comando de Fred Walton, que soube explorar o conceito no primeiro ato do filme, pecando apenas em contar mais do que o argumento rendia. Em 2006, foi feita uma refilmagem por Simon West, a partir de um roteiro de Jake Wade Wall, mantendo o enredo numa única noite e em um ambiente único, sem que também haja muito para contar. A principal surpresa dos dois filmes, e da própria lenda urbana, é que a ameaça vinha de dentro da casa, muito mais próximo do que as garotas – e aqui inclui Casey Becker (Drew Barrymore), de Pânico (Scream, 1996) – imaginavam. A série também reservava uma surpresa, prometida pela assassina Piper no final da primeira temporada antes de ser silenciada pela bala, e a revelação só podia apresentar um co-autor muito próximo das vítimas, principalmente de Emma (Willa Fitzgerald), alguém que era “de casa”.

Todas as pistas apontavam para o envolvimento de Audrey (Bex Taylor-Klaus) e Emma com a onda de assassinatos, incluindo a própria testemunha da psicóloga Kristin (Austin Highsmith), atribuindo à parceria um convívio muito próximo e o pós-trauma. Ao serem conduzidas à delegacia, o que tornaria improvável uma defesa coerente diante das circunstâncias, o assassino provoca um acidente com o veículo policial e mata o guarda-motorista. Entrega a chave das algemas e foge para a mata das redondezas para o estranhamento das garotas. Ao procurar ajuda num estabelecimento, recebem a ameaça telefônica: “Se vocês se entregarem ou forem pegas, alguém muito próximo irá morrer.

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Sem saber para aonde correr, Audrey sugere que a dupla se abrigue no cinema, local do início do novo pesadelo. Para lá também vão Noah (John Karna), recuperado do ferimento, Brooke (Carlson Young), que parece ter aceitado muito bem a morte do pai, e Kieran (Amadeus Serafini), deixando apenas do lado de fora o suspeito Stavo (Santiago Segura), como acontecera com Stu em Pânico, e Charlie em Pânico 4. Tudo parecia indicar um final ali mesmo, com mais alguns ataques até o assassino finalmente ser desmascarado, mas o assassino apenas fere gravemente Brooke antes da polícia chegar, e sequestra Audrey, enquanto  Kieran é mantido no local para os primeiros socorros (!!!).

Assustada por ter provocado mais uma ferida nos amigos, Emma decide seguir as orientações do vilão e vai ao orfanato onde Piper e Kristin cresceram, mas opta por não avisar ninguém. Mesmo com a informação não divulgada, logo Kieran e Eli (Sean Grandillo) aparecem para finalmente encerrar o mistério. Enquanto o palco se estabelece para o último ato, o xerife Miguel (Anthony Ruivivar) é avisado por Noah sobre as ações suspeitas de Eli, e ainda testemunha as lágrimas de seu filho Stavo com o incidente ocorrido com Brooke, concluindo qualquer possibilidade de seu envolvimento.

A revelação de que Kieran é o assassino só confirma todas as teorias apontadas desde o oitavo episódio da primeira temporada. Ainda que a cena não tenha o charme habitué da franquia Pânico, com a descoberta ocorrendo por conta de um erro na fala do personagem, e não tenhamos visto em nenhum momento as tradicionais sequências de perseguição, ela até que foi bem construída, com uma boa interpretação de Amadeus Serafini – ao contrário de Bex Taylor-Klaus, perdida em sua condição anticlimática. Eli surge ferido, acusando o primo da autoria dos crimes, mas é baleado por Emma até encontrar seu destino pelo disparo contínuo de Kieran. “Ele era obcecado por aquela garota e agora é obcecado por você“, diz o parceiro e namorado de Piper, unidos por uma vingança contra Maggie (Tracy Middendorf), que abandonou a filha e o próprio Brandon James.  Aliás, por que ela nunca recebeu uma única ameaça dos assassinos se tudo ocorreu devido aos seus pecados do passado?

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Quando os episódios finais foram concebidos, Jill E. Blotevogel e os demais realizadores da série já pensavam numa terceira temporada. Com o banho de água fria promovido pelo cancelamento da MTV, devido à baixíssima audiência, a conclusão da franquia foi determinada pela exibição de um episódio-duplo no Halloween. Isso se justifica pela sobrevida de Kieran, levado ao cárcere por Emma e Audrey, e o estranho telefonema recebido na prisão. “Olá, Kieran. Quem disse que você poderia usar minha máscara?“. Essa ligação, somado ao punhal na árvore com o bilhete de Maggie e algumas pontas soltas, só comprova o que todos já imaginavam: Brandon James agora quer fazer justiça ao que aconteceu no passado. E provavelmente era ele que mantinha as fotos de Emma, e fora visto pela garota na residência de Troy.

A série se conclui com mais acertos nesta temporada, mas ainda deixa algumas perguntas a serem respondidas: Kieran tem algum conhecimento de informática para produzir um vírus no computador de Noah e espalhar um podcast visual com as pistas que levavam a Audrey e Emma? Esse mesmo talento, incluindo o de roubar a identidade de outros nas mensagens dos celulares e fóruns da internet, além das ligações, já era evidente na primeira temporada, mas podia se justificar pela habilidade de Piper. Parecia que seu papel como parceiro seria apenas roubar provas na delegacia e os atos que exigissem um maior esforço físico como sequestrar o próprio pai e matar policiais na delegacia.

Outra dúvida – não é preciso questionar a relação entre Troy e Brandon, já que haverá mais dois episódios em outubro – é referente ao objetivo real de Kieran. Se ele queria torturar Emma e Audrey, conseguiu seu ápice com a prisão das duas, além das mortes ocorridas no decorrer da temporada. O “querer brincar mais” é que não se justifica, uma vez que não havia mais para onde levar seu jogo: as provas apontavam para Emma e Audrey, bastava apenas matá-las ou vê-las encarceradas por anos. Ele promoveu mais algum terror no cinema, mas não precisava continuar provocando as personagens, nem construir um cenário no orfanato que mostrasse que ambas são as criminosas e ele era o único sobrevivente. Piper tinha sido vingada!

Se a morte de Rachel, no início da série, era apenas uma forma de culpar Audrey – e ela foi mantida presa por conta disso -, por que depois a dupla continuaria o banho de sangue, se isso a afastou dos crimes? Qual era a relação entre Tina e Eli e o prefeito, se isso não foi além de desperdiçar os três personagens? Por que Kieran não encerrou o trabalho de Piper no final da temporada, quando viu a amada ser morta por Audrey e Emma? E os desenhos de Stavo, que mostravam os amigos feridos, e até cenas que só o assassino havia visto, como a fazenda de porcos e Branson preso à cama?

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Por outro lado, como fã da franquia original, é preciso enaltecer as homenagens bem realizadas. A culpa de Kieran remete aos crimes cometidos por Billy, ambos namorados das protagonistas; Piper era uma meia-irmã de Emma, como Roman era de Sidney em Pânico 3; a cena do acidente com o carro da polícia e as duas garotas no banco de carona é uma referência direta ao que aconteceu em um dos momentos mais tensos de Pânico 2; o desejo de Kieran de ser o único sobrevivente lembra as intenções de Jill em Pânico 4.

Dirigido pelo diretor da nova geração Patrick Lussier (do remake de Dia dos Namorados Macabro, 2009), When a Stranger Calls termina de maneira satisfatória a série Scream. Mesmo que muitos tenham se decepcionado pela obviedade das revelações – apontei a dupla criminosa na primeira temporada -, o episódio final foi bem interessante, com mais doses de sangue e assassinato, além da surpreendente sobrevivência do assassino. As falhas fazem parte de uma produção de mistério, com personagens se conflitando entre ameaças e relacionamentos tensos, mas boa parte ainda pode ser corrigida no especial de Halloween, quando Brandon James finalmente se revelar como o verdadeiro mensageiro da morte.

Avaliação:

4 (de 5)

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